domingo, 4 de maio de 2014

Somos todos o quê?

Eu sou branca, e isso significa que eu nunca sofri com racismo, o que me põe numa posição de observadora dele. O fato é que acaba-se de criar uma "moda" com relação ao racismo, não que seja ruim as pessoas debaterem o assunto, mas é que é muito ridículo ver como as pessoas agora decidiram fingir se preocupar com a questão do racismo, por mera manipulação midiática.
Vamos aos fatos: acho que todo mundo viu Daniel Alves comendo a banana que os torcedores racistas lhe jogaram, e como uma agência publicitária oportunista tomou isso como um ato contra o racismo e pagou pro Neymar, como quem não quer nada, subir uma foto comendo banana com seu filhinho loirinho, dizendo #SomosTodosMacacos. 
Agora vamos aos erros: quem criou a campanha aparentemente imaginou que Daniel Alves ao comer a banana admitiu ser um macaco e que isso foi um mega ato anti-racista. A questão é que Daniel Alves não disse que era um macaco, ele simplesmente comeu a banana como quem não está nem aí com o racismo dos torcedores, porque (1) quem sofre preconceito as vezes prefere ignorar mesmo, e (2) esse preconceito de hoje em dia, enquanto ele tem um emprego financeiramente invejável não deve ser nada comparado ao que ele deve ter sofrido quando era só um preto, pobre da roça. Ainda é um grande erro que se julgue que alguém que supostamente está se chamando de macaco é alguém lutando contra o racismo, já que esta comparação é uma das infinitas coisas que quem luta contra o racismo tenta combater. Então olha que lógica idiota do ser publicitário que bolou a campanha: Daniel Alves tá dizendo que é macaco, então se lutar contra o racismo é dizer que somos todos iguais, somos todos macacos iguais ao Daniel Alves. E assim nasceu a campanha anti-racismo mais idiota de todos os tempos.

As coisas ficam catastróficas quando o próprio jogador, a grande mídia nacional, artistas, celebridades, sub-celebridades, e até a CBF abraçam uma campanha tão medíocre e formam essa "moda" da qual eu comecei o texto falando. Talvez eu deva até tirar as aspas de moda, já que até mesmo no ramo da moda, no que se trata de vestuário, a campanha chegou, é só entrar no site da Huck (marca de roupas do Luciano Huck) que vemos ironicamente as modelos branquinhas vestindo a camisa da campanha, que pra você usar também, basta pagar R$70,00.
A conclusão é que assim como tudo no Brasil, a questão do racismo só se torna interessante para as massas se envolve lucro, que é o que os participantes e apoiadores famosos da campanha estão tendo. Enquanto isso, o preto pobre continua sofrendo o racismo real na pele. E a única coisa que eu tenho realmente a dizer enquanto observadora, é que eu, assim como o Daniel Alves, o Neymar, o Luciano Huck, ou qualquer outra pessoa, branca ou preta, sou humana.

2 comentários:

Soloh disse...

Muito bem dito Raquel. Eu também acho que essa coisa da "propaganda" é puro marketing para se ganhar uns trocados. Uma pena! A intenção pode parecer boa, poderia até ser, mas a verdade é que é apenas pelo dinheiro mesmo.
Uma pena que por aqui seja dessa forma.

Elyane Lacerdda disse...

Gostei do post!
Infelizmente é realmente tudo um sistema de sensacionalismo induzindo à propaganda, de assuntos que deveriam ser tratados com seriedade.
Afinal, o que é tratado com seriedade no nosso país?
bjus
http://www.elianedelacerda.com